A Pequena Fernandinha

Eu estudei em escola pública durante uns 95% da minha vida. Uma escola boa, pública, daquelas que os pais pagam promessa para conseguir fazer os filhos entrarem. Eu não sei se minha mãe pagou promessa, mas aos 7 anos eu fui sorteada e entrei, e são de lá as minhas melhores lembranças de infância.

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Meus amigos vinham de todos os lugares do Rio. Tinha o menino louro e rico (nos achávamos que ele era rico) que morava na Barra em uma época em que o Barrashopping me parecia uma ilha distante somente acessível na época de Natal. Tinha a menina pobre que morava na favela e que teve um irmão morto por bala perdida. Tinha a amiguinha que, descendente de japoneses, se recusou a aprender a escrever (em português) nas primeiras semanas de aula. Tinha o garoto gigante que batia em todos os outros. Tinha o menino nerd, queridinho da professora, que apanhava dos outros. Tinha o menino mais engraçado da classe, meu melhor amigo por uns dois anos. Tinha uma amiga que tinha 5 irmãos (eu não sabia que dava para ter irmãos de pais diferentes) e que imitava o Michael Jackson no recreio. Tinha o menino mais bonito da escola (pra mim), filho da bibliotecária, que jogava futebol no recreio e que era alvo dos meus olhares e corações rabiscados no cantinho do caderno.

Minha primeira professora chegou logo avisando: aqui não sou tia de ninguém. Então a gente chamava a senhora pelo nome ou como “professora”. Lembro que ela dava uns gritos também. E que não queria que eu respondesse as perguntas que ela fazia (nessa época eu era do tipo que levantava a mão para responder qualquer coisa), e me chamava de “saliente”.

Minha escola tinha uma horta abandonada nos fundos do terreno, atrás da Diretoria. A horta foi palco de reuniões de grupinhos, iniciações, além de todo tipo de história macabra – reza a lenda que era mal assombrada! A horta era o melhor lugar para se esconder, se você tivesse coragem. Era também o último lugar que se gostaria de estar se o tempo fechasse.

No recreio, quando eu não estava na biblioteca, estava jogando queimado ou cano – uma espécie de câmbio, onde o maior desafio não era marcar pontos, e sim conseguir arremessar a bola de forma que ela passasse por cima do cano de água que toscamente ligava um prédio a outro. Caso não tivesse espaço nas quadras (a gente chamava essa área do cano de “quadra” também), sempre dava para brincar de polícia e ladrão ou menino-pega-menina (ou o contrário) no pátio de areia. É gostoso lembrar como a maioria das brincadeiras era coletiva (engraçado que eu nunca tive o costume de levar bonecas para a escola, e essa acabava sendo uma brincadeira um tanto solitária), em uma fase que meninos e meninas não são tão diferentes quanto pensam.

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Esse monte de recordações veio à minha mente ao assistir, essa semana, ao filme O Pequeno Nicolau. Baseado nas tirinhas de René Goscinny, o filme é uma homenagem à infância. É difícil não lembrar das nossas crenças daquela época (com uns 5, 6 anos, eu tinha a plena certeza que, se entrasse no banheiro masculino, viraria um menino) e de como tudo era mais divertido. Depois de adulto a gente tende a pensar que criança é totalmente boba e inocente, e não consigo ver um erro mais estúpido. Eu adoro assistir crianças sendo apenas crianças, com vocabulário, lógica e identidade próprias – e lembrar que eu era exatamente assim.

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18 thoughts on “A Pequena Fernandinha

  1. Loli says:

    Adorei o post, baixou a nostalgia aqui também… e vc tá com a MESMA cara, a única mudança foi a altura… hahaha.
    Nessa lista que vc citou aí eu era a nerd queridinha da professora… hahahaha. Mas eu nao apanhava e tinha amigos.

    “Depois de adulto a gente tende a pensar que criança é totalmente boba e inocente, e não consigo ver um erro mais estúpido.”
    Concordo plenamente… quando eu era criança eu era muito mais malvada do que eu sou agora. Já aprontei com as pessoas, fiz coisas que me arrependo muito hoje (tipo amarrar o cadarço de uma menina gordinha na cadeira, junto com outra criança endiabrada).

  2. Kate says:

    Nossa, fiquei bem sudosista agora, quase chorei. Sua infância é muito parecida com a minha. Eu morava no Rio quando era pequena, e quando a grana ficou curta pela primeira vez, meu pai teve a brilhante ideia de pararmos (eu e duas irmas) de estudar! Acredita? Pq escola publica no rio é mesmo muito complicada. Então, Deus ajudou (so Deus mesmo) e durante aquele tempo nós tres consegumos vaga na Fundação Bradesco. Escola mais abençoada IMPOSSIVEL.

    Depois quando udo voltou ao “normal” eu mudei de cidade, mas as lembranças ficaram…

    Post perfeito na minha opinião.

    Beijo

  3. aninha says:

    Muito bom o texto…lembrei de coisas da minha época de escola, por exemplo a loira do banheiro, batia 3 vezes na porta, dava descarga e ela aparecia, vi várias vezes rsrsrsr. Que tempo bom!
    Quero assistir esse filme.

  4. natilopes says:

    fe… que texto bonito, mto bem escrito!!! saudades da minha infancia e qnd eu era ingenua… hj em dia sei como as pessoas são maldosas, invejosas… queria ter oc ooração puro que tinha naquela época =/

    beijossss

  5. Ana Carolina says:

    Lembrei mt da minha infância. Estudei até os 11 anos em escola particular. Tinhamos amigos fixos porque ninguém se separava de ano a ano. Fui mt feliz, era a queridinha da professora. srsrsrs a CDF.
    Adorei o post. O filme é fofo mesmo, vi no festival do rio.
    Beijo

  6. Patricia says:

    Eu vi o cartaz desse filme na Ufes e parei pra observar. Fiquei com muita vontade de assistir! Minha infância tb foi muito boa e como minha escola era antigo colégio de freiras, rezava a lenda que ali já tinha sido cemitério. Sem contar que no prédio onde eu fazia coral tinha uma santa e todos diziam que era mal assombrado. Uma vez fomos ao sótão mal assombrado escondidos e encontramos um passarinho morto na escada. kkkkkkkkkk. Lembro de tudo. Era tão bom.
    Beijos!

  7. Catarina says:

    ADOREI esse post! Fez-me lembrar muito da minha infância, que foi maravilhosa, boa parte dela passada numa escola muito boa! A foto está demais, eras muito fofa!

  8. marlene says:

    Me deu saudade de mim mesma, dos amiguinhos (ou inimiguinhos), da ingenuidade dos meus sonhos e dos meus medos…
    Lembrei-me das professoras “gritalhonas” empertigadas em suas “roupas sociais”, exigindo silêncio e disciplina…
    Mas lembrei-me, fundamentalmente, das professoras clássicas, suaves, elegantemente educadas e pacientes; das professoras “bicho-grilo” e das professoras moderninhas: politizadas, criativas, bem humoradas, cheias de estilo e de vontade de nos fazer pensar-discutir-compartilhar e crescer.

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