“atropelo, tropel, torpor, estupor”

Eu não consigo deixar de me admirar toda vez que leio um bom livro. Me parece um dom ver gente que sabe lidar tão bem com as palavras, descrever situações corriqueiras de uma forma tão simples, mas tão bonita que você jamais pensaria igual. E mesmo assim não parece um esforço – parece que a frase nasceu espontâneamente ali, naquelas páginas.

Estorvo, do Chico Buarque, foi o último livro que eu li em 2011. Eu adoro a prosa dele (se já não bastassem as canções e os olhos azuis), e recomendo o livro, que dá para ler num só dia chuvoso. É uma narrativa que te leva abruptamente, do mesmo jeito que carrega o protagonista, que parece agir ao sabor dos acontecimentos, quase como se a vida seguisse sem depender da vontade dele.

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Ela preenche o cheque, e seus cabelos castanhos não me permitem ver se está mesmo sorrindo, nem se esse sorriso quer dizer que eu sou um pobre diabo. A assinatura negligente, junto com o sorriso que não posso ver, quer dizer que aquele dinheiro não lhe fará falta. O ruído ríspido do cheque destacado de um só golpe pode querer dizer que essa é a última vez. Mas a maneira de encobrir e pousar o cheque ao lado do meu pires, como quem passa uma carta boa, e de retirar a palma acariciando a toalha, como quem apaga alguma coisa e diz “esquece”, significa que poderei contar com ela sempre que precisar. Ela se levanta e diz que está atrasada, diz “fica à vontade”, não sabe se sorri, molha os lábios com a língua, leva os cabelos para trás da orelha e vai.

 

Fica a dica.

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