Das coisas que não entendo: Coleção Serena da Valisère

Desde que nude é nude eu penso: nem todo mundo tem a cor de pele da Barbie. Nem todo mundo tem a “cor-de-pele” que a gente costuma usar quando desenha com lápis de cor, ainda mais no Brasil, em que temos uma (belíssima) gama de cores de pele que vão do branco-leite-alvíssimo, passando pelo pardo, moreno, chocolate, marrom bombom, enfim. E por isso mesmo que eu não entendo como a população negra é vista sempre, sempre mesmo, em último lugar, como se fosse uma minoria. Mesmo no Brasil, é complicado achar maquiagens no tom exato, produtos que se encaixem com essas necessidades e, quando eles são criados, conseguem ser anunciados dessa forma ridícula, como a promovida pela nova linha da Valisère.

.

Do site Chic:

Na sua nova coleção Serena, a Valisère ataca duas áreas: o sustentável e as clientes de pele negra, que tanta dificuldade têm em encontrar lingeries no seu padrão de cor.

Com seis modelos diferentes, as peças são elaboradas com tecido produzido com fibras de celulose extraídos da faia, árvore de florestas renováveis que dispensa sistemas de irrigação em seu cultivo. Na cartela de cores, marinho, branco e uma nova cor arroxeada, chamada Obsession, justamente recomendada para peles morenas e negras. Apesar da foto de divulgação (acima), a promessa é que o tom não apareça sob roupas claras.

.

Agora eu me pergunto: se a marca teve essa ideia tão bacana de criar um novo tom de nude voltado justamente para quem tem a pele mais escura, PRA QUÊ DIABOS usar uma modelo branca?! Porque é mais bonito? Porque é mais bacana? De verdade, alguém me dá uma luz aqui, porque eu não consigo entender. Cheguei a procurar no site da Valisère alguma explicação, mas justamente a foto polêmica não está publicada. Estranho, né?

.

,

.

Um dia eu estava discutindo com um amigo meu sobre cotas, presença de negros em cargos importantes, essas coisas. E daí eu disse pra ele que achava fundamental a presença de negros na mídia, em todas as mídias. Pq se você não se reconhece na mídia, ainda mais em uma sociedade em que a imagem é fundamental, é como se você fosse menos importante. Como se, de alguma forma, você – e todos aqueles iguais a você – não merecessem um lugar ali, na luz, no destaque. Quando você liga a tv e toda negra da novela é empregada ou escrava, nunca a madame, é como se houvesse uma barreira (sem contar as novelas que sequer tem negros!). E já notaram como aqueles papéis secundários, mas relevantes em novelas (o médico da família rica, o doutor Moretti, o advogado, etc) nunca são negros? Como os CEOs das empresas não são negros? As piriguetes que todos desejam não são negras? Lógico que isso está mudando, mas a gente tem que abrir os olhos sempre.

22 thoughts on “Das coisas que não entendo: Coleção Serena da Valisère

  1. camille says:

    com certeza isso não vai ficar nude na moça. hehe. se fosse a hope, até entenderia, já que a marca tem seu histórico de publicidade sem noção.

  2. Camila Fernanda says:

    Eu moro na Bahia, cidade colada com Salvador. Há dois meses eu estava procurando lingeries que se adequasse ao meus ternos e vestidos brancos. me pergunte se eu encontrei? morando na Bahia eu normalmente compro minhas roupas em SALVADOR. Estou estagiando no setor jurídico de uma grande empresa, me pergunte quantos advogados e advogadas negras tem? Essa propaganda é tão ridícula quanto tantas outras. Eu estou cheia de tudo isso. cheia de falsos elogios, cheia de morar num estado onde existe uma falsa democracia racial.

  3. Paris says:

    Idiotas, né. Bem imbecil mesmo.

    Quando explodiu essa bobagem de “nude” na moda, a Katylene fez um post sobre um red carpet, e tinha uma foto daquela atriz que fez “Precious”, com um vestido preto. Embaixo a legenda: “Fulana trabalhada no nude”. Sabe, eu também sempre pensei nisso… cor nude… para quem?

  4. Danielle Barroso says:

    Estou cansada desse preconceito nivelado que temos aqui no Brasil,mais uma vez essa palhaçada em torno da “pele” negra,me desculpe Fernanda,não é com seu post,muito menos com você,mas é sempre a mesma história,diminuir e segregar a negritude do povo brasileiro(nesse caso).Estamos em um país,como você mesmo citou miscigenado,e essas marcas seja de lingerie,cosméticos ou novelas/filmes,lançam qualquer coisa,metem uma modelo branca e depois vem dizer que contribuiu para diminuir a diferença que temos em encontrar tais produtos,assim como alguns canais chamarem atrizes negras para os mesmos papéis (empregadas,escravas ou a coitada da vez)…é uma vergonha!!!
    Tudo isso só me incentiva a dar continuidade aos meus estudos,para não cair nesse tipo de armadilha e ter informação suficiente para saber distinguir quando uma marca de produto tem consciência de que o mundo é feito de seres com particularidades e portanto deve-se respeitar e fazer com que todos estejam inseridos de uma forma igualitária/justa.
    Mais uma vez,a “senhora” nos coloca uma questão boa!Por isso,sempre que posso bato cartão por aqui,pois sei que vou encontrar um conteúdo de primeira,sem frescurites…Obrigado Fernanda!
    Bjins

  5. Juli says:

    Muito bom o post Fernanda. Eu estes dias queria um esmalte nude do meu tom de pele. Comprei um “nude” de uma marca e misturei com um outro tom para conseguir o tom que eu queria e ficar o meu nude. Temos que reclamar sim, pois infelizmente existe muito preconceito no Brasil.

  6. anna says:

    Calma, Fê, às vezes colocaram a modelo branca apenas para mostrar o novo tom, para dar o contraste. O ideal seria colocar modelo negra e branca juntas.

  7. Lu says:

    Nós, negros, temos que nos conscientizar que temos que estudar mais e trabalhar mais do que o branco para conseguir ter um lugar na sociedade.Então façamos isso. Só vão contratar o cara negro em detrimento de um branco quando o currículo dele for i-n-f-i-n-i-t-a-m-e-n-t-e superior, é isso, pronto.

    Então, enfiemos a cara nos livros, aproveitemos esse país de ignorantes (brancos e negros) e vamos nos destacar positivamente, é fácil.

    QUEM SABE UM DIA NÓS MESMOS ACABEMOS COM ESSAS COTAS HUMILHANTES E POLÊMICAS (porque quem passa nas cotas precisa estudar, se estudar mais um pouquinho passa fora delas).

    Aí sim, as empresas vão notar que 50% da população não é branca.

  8. Marina says:

    É complicado ter que, ainda hoje, continuar discutindo essas questões, mas, infelizmente, necessário. Sério, eu queria me achar démodé quando me vêm à tona questionamentos exatamente como os seus…”os tempos são outros”, dizem. “os negros passaram a ser vistos pelo mercado/reconhecidos na sociedade/ocupar cargos importantes”. Melhorou, mas ver anúncios como esses da Valisére é frustrante…
    Hoje, assistindo ao Estúdio i, da GloboNews, falavam algo sobre cotas nas passarelas. Uma jornalista fez uma afimração muito contundente, e que me parece correta: a desnecessidade de cotas (no mundo da moda) vem exatamente da imposição de que as marcas reconheçam que o mercado mudou, que existem pessoas com vários tons de pele consumindo, sob pena de não se manterem no mercado. Produzir e pôr nas mídias a diversidade é questão de sobrevivência para o mercado da moda.
    Quanto a mim, boicoto tranquilamente se não me vejo, se não me identifico com anúncios.

  9. Fernanda says:

    Falha épica usar uma modelo branca na propaganda de lingerie nude para negras. Achei de péssimo gosto. Não entendo quem aprova essas coisas antes de lançar na mídia.

    Sobre a TV. Mesmo que ainda não existam muitos papéis onde negros sejam protagonistas pelo menos há negros na TV. Infelizmente nosso País, mesmo com toda a mistura, é um País racista, onde a elite tem papel principal, cor e situação financeira definida, independente do caráter.

    Deprimente😦

  10. Amanda says:

    O chato é que é uma situação totalmente ampla,que vai desde um anuncio de calcinha , de maquiagem, até situações mais críticas como se reconhecer como único negro da sala da sua faculdade pública de ponta; ver o descaso gritante de abandono da favela, da baixada fluminense…
    Acho que os negros não são tratados como gente ,sinceramente, ainda mais se for negro e pobre!
    O assunto das cotas é realmente polêmico,mas acho que são muito bem vindas.Nas faculdades ao menos, os melhores cursos são super concorridos, e a dificuldade de passar é enorme,e eu arrisco a dizer que o negro pobre (que vamos assumir que é a maioria)tem chances mínimas comparadas a um aluno não negro pobre.Simplesmente porque o ensino básico público ,oferecido às pessoas mais pobres é ridiculo.
    Poderia ficar escrevendo aqui linhas e mais linhas de como esse Brasil é preconceituoso,mas qualquer um que ñ é cego, pode ver isso.

    Fico muito feliz Fernanda, de ver que você é uma pessoa consciente.Adoro o seu blog por isso.
    bjão

  11. Maria says:

    Apoio o boicote…eu não compro Valisère há anos, trabalhei em um municipio que tinha uma fábrica Valisère e conheci muitas garotas de 16 e 17 anos que eram contratadas para trabalhar sem registro com a promessa que seriam registradas após 3 meses, mas passando os 3 meses eram dispensadas com a desculpa que não haviam passado na experiência…sem contar que o trabalho era semi-escravidão, se não dessem produção, tinham que ficar até mais tarde na empresa até que terminassem tudo!

  12. Marcia Barbosa says:

    Oi Fe,
    Quer entender mesmo? Lá vai “Negro tem cara de pobre, sujo, já o branco tem cara de rico, de gente limpa” Se os papéis forem trocados vai queimar o filme da emissora, da empresa e etc.
    É triste, mas a realidade é essa.Tentam disfarçar, mas ainda olham o negro como bandido. E olha que os grandes bandidos, na sua maioria, são brancos e estão em Brasilia. hahaha
    BJS
    Marcia

  13. Cristina Chabariberi says:

    Oi Fê, concordo com vc, que campanha mais sem coerência da Valisere. Mais uma vez o preconceito de uma maneira “subliminar”, né?!?…Comentando sobre o que vc falou dos negros em novelas sempre em papéis de empregada, babá…é um reflexo da nossa realidade hipócrita. Trabalho com visualmerchandising, o meu cargo me obriga a participar de reuniões de estratégia das empresas que trabalho, workshops. Sabe com o que me deparo sempre: com muitos olhares, as pessoas estranham a minha presença, até pq sou na maioria das vezes a única! E no aeroporto?!? Viajo a Santa Catarina a cada 15 dias e parece que tenho uma melancia na cabeça de tanto que chamo atenção, olhares que vão do pé a cabeça…minha estratégia é me vestir bem, levantar o nariz e fazer a blasé metida…e rola aquela tensão do tipo: “não posso errar” , sabe?Ah, e quando as pessoas te conhecem, sabem do teu trabalho e da tua importância, vc vira uma “sem cor”, hipocrisia parte 786 A alguns anos trabalhei em lugares de luxo (Shop iguatemi, Daslu, Oscar Freire) e os negros lá eram apenas da limpeza, o segurança, a menina do cafezinho….me sinto orgulhosa em representar os negros nesses lugares, em cargos maiores e quero me especializar para cada vez mais aumentar a minha posição, sem abaixar a cabeça e encostar uma chapinha no cabelo, muito pelo contrário, armando cada vez mais o black! bjo e adoro seu posts, quase minha versão carioca.

  14. Paula says:

    Oi, acho que a modelo branca só foi usada para constrastar melhor com a cor da lingerie, questao fotográfica mesmo. Mas realmente, eles poderiam ter sido mais inteligentes e colocado uma modelo mulata clara que também daria o contraste.

    • Fernanda Alves says:

      Sabe pq eu acho que nao foi essa a questão? Pq poderiam ter usado uma modelo negra para “dar contraste” a uma lingerie branca, e isso nao aconteceu. Nao há modelos negras em momento nenhum na comunicação visual dessa coleção. Tenso, né?

  15. Fernanda Coelho says:

    Fernanda,

    Fiz uma reclamação no site Reclameaqui e olha a resposta ridícula da empresa:

    “A cor Obsession, presente na coleção Serena, é indicada para todos os tons de pele de forma democrática, mas se adéqua para peles morenas em geral. Conforme política da empresa, todas as coleções são democráticas e multirraciais, a marca nunca lançou coleções específicas para cores de pele, pois todas as mulheres podem usar Valisere sem restrições.”

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s