A pindaíba e o detector de tendências

Trabalhar como assistente de produção é dureza: tem muito mais glamour (pra quem olha) do que dinheiro (pra quem trabalha), e o fato é que hoje estou vivendo com muito menos do que antes. Menos roupas, menos sapatos, menos bolsas. No começo, achei que fosse surtar, vendo tanta loja, tanta roupa, tanto estilista quando trabalho. Novidade é o que faz a engrenagem da moda funcionar, e é o combustível para o desejo de consumo de toda shopaholic. Então, ver as tendências o tempo todo ali na minha frente e não poder comprá-las todas é, em um primeiro momento, uma tortura.

Eu vi as liquidações de verão se esgotarem. Eu acompanhei as baixas de preço até o fim. Eu vi a coleção da Maria Filó para a C&A chegar e acabar. Eu vi a saia mullet surgir de repente nas lojas brasileiras (antes até do que eu esperava). Eu vi as lojas começarem a liquidar o inverno bem cedo. Eu vi a febre dos sneakers (originados pela Isabel Marant) tomar todas as mídias sociais. Eu vi tudo isso e não participei de nada.

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Aquela angústia do começo deu lugar ao que eu chamo de um detector de longevidade para as tendências. É olhar para elas com certa calma e assistir à sua linha do tempo:

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Tendências brotam do nada em blogs gringos ➜ o povo surta porque não tem aqui, então faz posts de inspiração, lota o pinterest, aquela loucura  ➜ a peça chega às lojas brasileiras, uma depois da outra ➜ ela se esgota nas lojas e, pronto! = Está todo mundo vestido igual.

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Se todo mundo está vestido igual, os formadores de opinião (chamados de early adopters, pois adotaram a tendência antes dos outros) já não veem mais valor na peça, deixam de usar. ➜ No entanto, a massa vai se acostumando à novidade ➜ TODO MUNDO COMEÇA A USAR ➜ Mal sabem eles que a tendência já chegou ao fim.

O que era tendência vira cafona em dois tempos. Assistir esse caminho de um extremo ao outro (do estiloso ao cafona) em poucos meses me mostrou que a maioria dos meus desejos de consumo repentinos se provariam perdas de dinheiro no longo prazo.

Ok, mas nem tudo é tendência meteórica. Tem também aquelas peças que me parecem mais clássicas, tem a ver com o meu estilo… mas aí, quando eu coloco na ponta do lápis, vejo com as coisas estão caras. Olhando roupa todos os dias e tendo pouco dinheiro para gastar com elas me faz pesquisar muito mais. Sem contar com as repetições. Indo a vários shoppings e visitando dúzias de lojas para produzir, você repara como a galera copia. Copia os estilistas lá de fora, copiam umas às outras… Vi um mesmo vestido na Leeloo e na Folic. Iguais, mas com preços diferentes (agora não tenho certeza, mas acho que na Folic estava mais barato). E quando você vê uma mesma peça repetida over and over again, inevitavelmente cansa dela.

E quando vejo peças bacanas, mais clássicas, com o meu estilo, diferentes das outras e com um preço bom? Quando a oportunidade surge, eu olho, olho, e muitas vezes percebo que tenho algo parecido. Ou algo que dá pra ficar parecido, sabe? Então minhas últimas compras tem sido de itens básicos mesmo: blusinhas de R$ 19 na Zara, outras de R$ 50, mas que posso combinar com o que tenho, alguns acessórios mais marcantes, essas coisas. De vez em quando ainda dá um comichão e quero comprar tudo, fico triste porque não posso, mas é dor que dá e passa.

E vocês, como enxergam essa dança das tendências? Querem experimentar alguma?

30 thoughts on “A pindaíba e o detector de tendências

  1. Dandara says:

    Huauahuahauh to me sentindo assim, quero tudo mais tá tudo tão carooo, onde moro é praticamente verão o ano inteiro, e gente uma blusinha de seda ou similares aqui tá mais de 100, olhei pesquisei e nada de achar algo realmente bom…fui comprei o tecido, fui em uma costureira conhecida e tchan três blusinhas lindas, do jeito que eu queria por menos de 40 reais cada, já incluso a mão de obra e o tecido…Fora que quis um sneaker, fui na arezzo, experimentei, mas minha cidade e a minha falta de estilo me inpediram de comprar…sobrevivi!

  2. priscilla says:

    falou tudo! há uma certa pasteurização feminina. uniformes. não aguento mais sair e dar de cara com saia bandage, chapinha, luzes e scarpin…

    um site q tem preços legais é o fashion delivery.
    bjsss

  3. Cáren Cruz says:

    Sério, quando há dinheiro, não há limites para comprar, usar, abusar e reeinventar. Não há como fugir: a moda vai e volta pregando peças em nós! E, não há como negar: somos consumistas, consumidoras, gastadoras, sim!
    Eu sempre me deparo questionando itens e peças que eu tenho no meu armário (acredito em milhares de vezes que o montante servirá para todas as minhas gerações). Observo este vai e volta de tendências “impactadas” em luxo e espetacular, analiso a minha realidade versus limite e mesmo assim sempre fito a vitrine como se fosse uma E.T que acabou de cair (não de paraquédas, e sim de disco voador) aqui na Terra. São segundinhos FDP (desculpa a boca suja) que fazem com que meu ego e super ego entrem em conflito e, que na maioria das vezes o meu humor, meu limite de cartão de crédito e os míseros centavos que restam na minha carteira tornem se fatores decisivos pra mim.
    Aí me deparo em crise por acreditar que algo está errado em mim, e que, preciso ser tratada urgente. Mas quem irá dizer que não existe razão…

    #desabafei

  4. Andrea says:

    Esse post fez todo sentido para mim, eu ando questionando justamente isso: a pasteurização das tendências, o fenômeno das fast fashion e o consumismo está fazendo com que nos tornemos iguais no modo de se vestir. Tá tudo igual, é só passear pelos famigerados blogs de moda.

    Daí me chegou às mãos a seguinte matéria: http://smoda.elpais.com/articulos/del-low-cost-al-fast-fashion-eeuu-cuestiona-la-moda-a-bajo-precio/1922

    Vale muito a reflexão. Precisamos de tanto pra viver?
    beijo

    • Fernanda Alves says:

      Andrea, a matéria é realmente muito boa. Gostei muito do trecho que diz que, ao lançar novas peças a cada duas semanas, as lojas acabam com a expectativa, inevitavelmente repetem as peças, matam a criatividade. Com isso acho que o ciclo das tendências fica cada vez menor.

  5. jota c. says:

    Muito pertinente seu post! Porque a maioria das pessoas ficam preocupadas em acompanhar tendências e esquece o estilo pessoal.Vi até alguns meninos usando esse sneaker escroto com salto alto.Uma tendência que não pega bem nem para mulher ,quanto mais para homens!
    O legal é quando podemos brincar com as peças que já temos,peças básicas e clássicas e ir mixando com acessórios ou peças de tendência que não comprometam nem nosso estilo pessoal ,nem o nosso bolso =)

  6. Lu says:

    Sabe, é só observarmos mais os homens (sim, eles mesmos), e aprenderemos a não nos iludir tanto com as ‘bolas da vez’ do consumismo. Coloque na frente de um cara duas mulheres: uma de minissaia jeans surrada, com pernas bem cuidadas, mas não tão ‘it girl’, e outra super na moda, com saia mullet, sneakers e colete de pelo.
    Pronto, qual das duas vai causar babas do desejo, vai ser objeto de olhos e pescoços tortos no restaurante?
    Então, às vezes mais vale uma caminhada na areia ou uma pedalada do que um giletada no cartão de crédito na Zara/Sephora/Shoestock/Arezzo.

  7. Tati says:

    Adorei sua reflexão Fernanda! Eu meio que intuitivamente já usava essa lógica, até por observação mesmo ao meu redor. Canser de ver coisas que eu via as meninas nos blogs usando há tempos chegando como novidade nos lugares que eu trabalho e na faculdade e eu ficar olhando e pensando: Putz to tãoooo enjoada disso já kkkkkkkkkk Eu acho que com tendência, serve o raciocínio: eu vou usar mesmo quando todo mundo falar que é “last season” (aff odeio esses termos kkkkk)? Então compro. Se não, fico só olhando a modinha passar!!!!
    Beijos
    Tati

  8. Vivi Brignes says:

    Só você mesmo para fazer um post desse!
    É realmente isso que acontece quando o hobby vira profissão.
    Os valores mudam e sempre fica melhor para o bolso e a vida.
    Daqui a pouco seus desejos serão outros…
    Parabéns pela ousadia!
    Bjks

  9. Taya says:

    Identificação total com cada palavrinha do seu post, Fernanda! Deve ser por isso que eu gosto tanto de estar por aqui… me conforta, sabe? rs Tb trabalhava com comunicação e saí do emprego pra trabalhar com produção de moda, e estou vivendo as mesmas “dores e delícias“ q vc tem falado nos posts dos últimos meses (acho até q já falei sobre isso aqui rs).
    Sempre achei que ia dar uma surtada qd começasse a trabalhar com moda, que ia querer comprar tudo loucamente! Mas, sabe

  10. Taya says:

    Identificação total com cada palavrinha do seu post, Fernanda! Deve ser por isso que eu gosto tanto de estar por aqui… me conforta, sabe? rs Tb trabalhava com comunicação e saí do emprego pra trabalhar com produção de moda, e estou vivendo as mesmas “dores e delícias“ q vc tem falado nos posts dos últimos meses (acho até q já falei sobre isso aqui rs).
    Sempre achei que ia dar uma surtada qd começasse a trabalhar com moda, que ia querer comprar tudo loucamente! rsrs Mas, sabe? Foi o contrário! Hj sou muito mais consciente e mais crítica com a moda em geral, com as minhas compras… tenho aprendido o valor real das coisas, a não supervalorizar tendências, que como vc mesmo disse, estão cada vez mais meteóricas.
    Enfim, acho q qt mais a gente entende como todo esse mercado funciona, mais real é a possibilidade de usarmos a moda ao nosso favor, e não contra nossos bolsos!😉

    À propósito, diante da febre “Isabel Marant“, fico com meus sneakers baixinhos e confortáveis… muito mais a ver comigo!

    Bjo, lindona!
    E continua alimentando isso aqui, tá? As fãs agradecem rs

  11. Bia Galvão says:

    Fernanda, adorei o post e o tema, verdade seja dita, acho que aconteceu várias coisas qdo passei a trabalhar com moda, um fiquei mais atenta a comparar preços, a saber q não precisa de ter “marca” para achar algum item desejado, ao mesmo tempo sim dá vontade de ter muita coisa, achar q o mundo da muito caro,rsrsrsr, e não dá para acompanhar o ritmo da moda só pelos meio, pelos blogs, pq senão acontece o q vc falou, a gente cansa muito rápido devido a overdose de imagens, mas qdo me deparo com minhas irmãs e amigas e o elas perguntam, vejo q sim dá para desacelerar um pouco, tá “entupido nas lojas” mas nem todo mundo cansa e vê a próxima estação como nós, ou seja elas ainda estão usando sim muitas coisas q estão na moda e outras não chegaram ainda com tanta força.
    Enfim isso é papo para muitas linhas rsrsrsrrs
    bjsss

  12. Leticia says:

    Fernanda, menina, sempre dou uma olhadinha no seu blog e nunca comento por pura preguiça, mas hoje tive que parar e escrever. Logo que acordei e fui procurar algo pra vestir comecei a pensar nesse assunto, sabe quando você tem aquele momento “putz, não tenho nada pra usar, preciso comprar isso, aquilo…”? Então deu e passou bem rápido porque na real to com o guarda roupa lotado de coisas e cheia de preguiça de pensar! A verdade é bem essa, daria pra produzir um monte de look legal com as coisas que tenho, mas eu entro no automático e acabo colocando sempre as peças que comprei de par ao invés de tentar novas combinações. Uma pena né, porque isso me faz pensar que preciso de mais, enquanto deveria ter menos! Esses dias me peguei desejando um desses tênis de astronautas, o pior é que que quando vi os benditos pela primeira vez achei um horror (e são, pelo amor!) Logo em seguida pensei: pra que? Pra ser igual a todas? Até os blogues de moda perderam a graça porque basta olhar um e pronto… Você já viu todos, todas as meninas vestindo a mesma coisa, o sapato com o bico de ouro, coisas de plástico transparente que são uó (mas grifados, ui), esse troço de monocromático, colares que devem dar até torcicolo e aquele tanto de pulseira de hippie misturada com jóia Tiffany. É quase engraçado, não fosse um pouco triste. Ainda bem que na contra mão a gente encontra blogues como o seu, um lugarzinho simples que mostra uma menina linda de verdade, usando roupas pra viver a vida e não vivendo uma vida pra usar roupas. Vou continuar dando uma espiada sempre. Beijo.

  13. says:

    Entre um vai e vem da moda eu desejo muitas coisas, mas paro para pensar se vai ficar bem em mim, no meu biotipo. Claro que as vezes dou umas escorregadas e gosto tanto que acabo levando. Mas de uma maneira geral só de ver esses blogs de moda eu já canso: está todo mundo uniformizado! Tem coisas bem legais que a gente pode comprar ou adaptar com o que já tem, outras que são muito loucas ou não combinam com minha personalidade. Acho que o lace é vc não ir de encontro a sua essência, mas deixando espaço para experimentar coisas novas. O tênis que vc ilustrou a matéria que achei bem legal em várias produções que eu vi, uma coisa colorida, descontraída que eu curto. Aqui no Brasil a gente é ainda muito conservador, do tipo “combina bolsa com sapato”; e lá fora as pessoas tem mais liberdade, se vestem sem se preocupar com o julgamento do outro. O importante é não sofrer com nada disso e ser feliz!

  14. annakuhl says:

    Ai, o mundo glamuroso da produção! Ok, meu trabalho é diferente, bem mais pobre, que é fuçar brechós pra achar as coisas que vão compor o figurino de teatro, e mesmo assim eu passo vontade – ô pessoa creyssa!

    Mas gosto muito disso que você fala de deixar as tendências passarem, e conseguir ter discernimento de ver que aquilo não funciona para você e que vai ficar brega em 5 .. 4… 3..

    Pra mim, você explicou exatamente como funciona o que eu chamo de “creyssalização”. E desculpa aí quem gosta, mas Deus me livre de sneakers com salto e saia mullet!

  15. Kathleen says:

    é são poucas as blogueiras que falam dessa realidade ,falou tudo que eu penso . tá de parabens adoreii o post

  16. Juliana Veiga says:

    Também tenho visto muita gente aderindo as tendências de forma rápida que surpreende, o que demorava um tempo pra aparecer nas ruas. E todo muito parecido!
    Mais como meu caso de assemelha ao seu, pouca grana e medo de pagar caro em uma peça que logo ficar brega por isso tenho optado pelo básico e sempre usual.

  17. Priscilla Medeiros says:

    Ola Fernada,
    Conheci seu blog hoje e já achei super terapeutico.
    Me permita o desabafo:
    Em janeiro fiz uma viagem a Orlando, e fiz megas compras, só de modices e lançamentos. Pouco tempo depois de ter voltado ao Brasil, minhas peças já estavam sendo vendidas nos camelôs, e claro não consegui mais usar, pois ninguém sabe identificar o original do fake.
    E comecei a pensar se seguir moda é bom ou é apenas capricho.
    Essa semana fui comprar o tal do snekers, que estava namorando e só que queria o da Arezzo, estava esgotado. Parecia um sinal. Deixei meu nome na lista de espera. A vendedora me ligou 2 dias depois para eu ir buscar, pensei 1 milhão de vezes e não fui. Pois percebi que mal chegou essa moda e já esta acabando. E ainda uma amiga chegou pra mim e falou assim: vai gastar essa grana toda pra andar igual a todo mundo ? E pensei nas palavras dela no momento da desistência.
    O mundo em rescessão e nós Brasileiras, comprando futilidades.
    É bom ter as coisas, está na moda, ter assunto no meio. Mas para isso não precisamos falir ou estourar os cartões.
    ufaaa, desabafei. obrigada.

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