Qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa

Nossos ídolos ainda são os mesmos

E as aparências não enganam não

Você diz que depois deles

Não apareceu mais ninguém

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Eu tenho essa imagem da Elis Regina que data da minha infância, ela cantando (talvez no Fantástico) e, em um determinado momento, chorando. A voz límpida, mas cheia de emoção, uma emoção que transbordava. Eu guardei essa imagem em mim muito antes da música; a imagem daquela moça chorando na televisão.

O vídeo provavelmente era uma homenagem ou algo do tipo, uma vez que Elis morreu 3 anos antes que eu nascesse. Meus pais ouviam em casa, mas sabe aquelas músicas que você escuta quando é criança e não sabe exatamente sobre o que estão falando? Você ouve, mas não escuta, não presta atenção na letra. Elis estava na minha vida, mas como um pano de fundo, uma trilha sonora que toca ao longe.

Foi na minha adolescência que eu realmente parei para ouvir, e foi aí que ela me arrebatou. Eu nunca tinha visto ninguém cantar assim – quer dizer, ver eu vi, na tv, a moça que cantava e chorava – e acho que nunca verei. Aquela emoção, aquela enlouqüência, aquela paixão toda. Tem músicas que eu escuto * que me dão um aperto no peito, uma vontadezinha de chorar; é ela lá, me atingindo com todo o seu fogo. Não sei muito sobre ela, sobre o tipo de pessoa que era, não sou profunda conhecedora de sua obra, mas ela consegue fazer o que quase ninguém mais consegue e, para mim, isso é ser artista.

****

Dia desses fui ao Centro Cultural Banco do Brasil para ver a exposição sobre a Elis – esse ano completam 30 anos de sua morte – e gostei bastante. Fui com o João, que também gosta muito da música que ela fazia, e ficamos rodando por lá um bom tempo. Para quem não conhece muito da sua obra é uma oportunidade bem interessante. No entanto, é bastante superficial: você entra e sai sem saber muitos porquês. Diziam que ela tinha a personalidade difícil – mas isso não se vê na exposição. Quase não há informação sobre sua vida pessoal, sobre os conflitos que tinha com o primeiro marido, o Ronaldo Bôscoli, sobre a relação conturbada com os pais (ela passou a sustentá-los muito cedo, cantando), sobre a relação que tinha com o governo militar (numa época em que muitos artistas se posicionavam claramente contra o regime, ela parecia se colocar à margem), essas coisas. Também achei a cronologia meio bagunçada – a exposição não tem um fio condutor, sabe? Poderiam ser seus discos, seus casamentos, tanta coisa pra ajudar a gente a se guiar. Resumindo: essa não é uma exposição definitiva; acho que muitas outras ainda virão, mais completas. Pelo menos é o que eu espero.

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Saí com tanta dúvida na cabeça depois da exposição que desenterrei uma biografia da Elis que comprei meses atrás. Estava juntando poeira com outros livros que eu ganhei/comprei/peguei emprestado e não li (tem a biografia do Paul McCartney pelo Peter A. Carlin, o 1808 e um clássico do jornalismo escrito pelo Gay Talese). Peguei e estou devorando, comecei no domingo e acho que ele não sobrevive até o final da semana. O livro é como uma grande reportagem, e também tem longos trechos escritos em 1º pessoa, além de algumas fotos. A autora é a Regina Echeverria. Recomendadíssimo.

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*Como Nossos Pais é uma que me dá um arrepio, sempre.

11 thoughts on “Qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa

  1. Mariana says:

    Fernanda, gosto demais de acompanhar seus posts! Você é muito divertida! esse em especial achei muito bem escrito, com um leve tom de resenha, gostoso de ler.🙂
    Um abraço!

  2. Cat says:

    Adoro essa música também, e o mais impressionante na Elis Regina não é somente a voz dela, é a emoção que ela consegue passar, a gente não precisa nem ver o rosto dela cantando.
    Mas minha preferida é O Bêbado e o Equilibrista. Principalmente esse trecho:

    “Mas sei que uma dor assim pungente
    Não há de ser inutilmente
    A esperança dança
    Na corda bamba de sombrinha
    E em cada passo dessa linha
    Pode se machucar…
    Azar!
    A esperança equilibrista
    Sabe que o show de todo artista
    Tem que continuar”

    Tem tanto a ver com a fase atual da minha vida que não consigo ouvir sem chorar. Tá bom que minha dor não é assim pungente, mas a angústia é grande.

  3. annakuhl says:

    A Maria Rita que desculpe, mas nunca haverá outra como Elis.
    Aliás, ando meio farta dessa jacuzisse geral da música brasileira atual – cantar, muita gente sabe, e bem, mas fazer performance, se expressar de verdade através da música, como a Elisa fazia, olha … tá bem díficil.

  4. DaniC says:

    Fê, esse texto tá uma delícia de se ler.
    Eu fui nessa exposição e me emocionei. Mas sobre isso que você falou, de não ter um fio condutor e tal, entendi como sendo pra gente fazer uma imersão na vida dela e sentir como se ela estivesse ali, viva com a gente. Na minha humilde opinião, a intenção dessa exposição é essa: tentar reviver Elis, nem que seja na mente da gente.

    Tem um cofre que tem uma apresentação dela em vídeo, deram um super close, parece que ela está cantando pra você. Eu sentei no chão (pra quem não conhece, lá o povo senta no chão mesmo rs) e viajei na voz dela. Quando ela cantou Como Nossos Pais eu não aguentei, chorei. Essa letra é uma porrada. A voz dela é uma porrada.

    Por mais que ainda apareçam bons nomes na MPB (eu to curtindo muito uma banda chamada Pitanga em Pé de Amora, se tiver um tempo dá uma escutada. O som é maravilhoso), nenhum alia boa voz e emoção como Elis. É como um amigo que foi à exposição comigo disse: até as músicas do Belchior que ela cantava ficavam melhores na voz dela. Elis é eterna.

    Beijos!

  5. Aline says:

    Ai, Fernanda, adoro a Elis. Tenho uma coletânea de cinco CDs dela. Realmente o que me chama atenção é a paixão que ela coloca interpretando e a potência da voz. Já viu o vídeo dela cantando “Atrás da porta”, do Chico Buarque? É de arrepiar!

    Pode até ser que tenha rolado isso de ela não se posicionar na época da ditadura, mas ela é a intérprete mais famosa dessa canção de Belchior e há um claro posicionamento político em “Como nossos pais”.

    • Fernanda Alves says:

      Sim, verdade, mas tem aqueles acontecimentos bizarros, tipo abrir as Olimpíadas do Exército e mandar cartas para grevistas dizendo que tinha “muito medo” e que se achava “muito covarde”… esssas coisas.

  6. dani says:

    Li num fds …. quase de uma talagada só … bebi cada letra com a msm sede que bebo a voz dela … nunca mais , depois dela … nunca mais , ela cantando é viceral …

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