A importância do “núcleo negro”

Quando vi as chamadas da novela das 18h, Lado a Lado, confesso que o meu sentimento foi de desconfiança – mais uma novela de época, em que os personagens negros são só os escravos – mas logo no primeiro capítulo eu mordi a língua. Poderia dizer inclusive que, até mais do que Da Cor do Pecado, Lado a Lado é uma novela revolucionária.

Talvez “revolucionária” seja muito forte, mas entendam: a gente se acostumou a ver os atores negros organizados em nichos dentro das novelas, o tal do “núcleo negro”. Lembro, inclusive, de quando o termo foi empregado pela primeira vez, em uma novela que tinha o Milton Gonçalves e uma família negra de classe média. Já não lembro qual novela era, mas a questão é que eles estavam lá quase que preenchendo uma cota, dizendo existimos, estamos aqui, mas representavam muito pouco no que diz respeito a cultura popular (não lançavam moda, não eram ídolos dos jovens, não estrelavam grandes campanhas publicitárias,etc).

De uns tempos pra cá, os personagens negros foram se tornando parte integrante da trama, se misturando aos outros núcleos e tendo importância não mais pela cor da pele, mas pelo caráter e peso de cada personagem, como deve ser. Mas acredito que Lado a Lado se diferencie das outras novelas por trazer, em sua sinopse, negros e brancos (e mulatos, e pardos, e moreninhos) juntos. Camila Pitanga é tão protagonista quanto Marjorie Estiano, entendem? A destruição dos cortiços é tão importante no desenrolar da história quanto a independência da mulher. Na abertura da novela, as mãos negras estão ali, ao lado das brancas, como que construindo o enredo, isso é muito simbólico. E como é bom ver jovens atores tendo a oportunidade de desempenhar papéis diversos – Berenice é duas caras, Caniço é idealista, mas manipulável, Isabel é uma guerreira, trabalhadora braçal, mas fala francês, etc – que não só o de coadjuvantes.

Vai ter gente dizendo que isso já acontecia, que Sheron Menezes já foi protagonista de novela, que Camila Pitanga já é sinônimo de papel importante há tempos, mas eu repito: é importantíssimo ver esses personagens crescendo. Isso sem contar com o par romântico que já surge entre Isabel e o Albertinho, personagem de Rafael Cardoso que já desponta como galã (nutro um crush por ele desde A Vida da Gente, pode?). Digo isso pq eu vivi a minha adolescência quase inteira sem ídolos negros na TV, e vejo que já pode existir uma geração que olha para a telinha e se reconhece em seu talento e beleza. Isso não é ótimo?

20 thoughts on “A importância do “núcleo negro”

  1. Vivi Brignes says:

    Adoro o João Ximenes desde as crônicas do O Globo e acho que ele fará de Lado a lado um marco na história televisiva brasileira. Tem muito tempo que não assisto novela, mas essas por forças das circunstâncias quero e vou acompanhar. Além das questões do negro, da mulher , das artes tem o crescimento da cidade do Rio de Janeiro que me encanta muito. É uma obra para ser indicada pelos professores de história, principalmente das escolas públicas, onde as crianças tem menos oportunidade de conhecimento.

  2. Tamara says:

    Isso é ótimo, realmente. Assisto Lado a Lado diariamente (pelo site da Globo, não consigo chegar a tempo em casa) e acho sensacional a história do meu povo estar sendo retratada na novela.

    Lembro quando teve aquela onda de novelas só sobre italianos, meu pai reclamar e perguntar quando que eles fariam uma novela para contar honestamente sobre a história dos negros. “Sem ter aqueles negros tolos”, meu pai dizia. E aí está. Super bem feitinha, verdadeira. Muito orgulho!

    Só quero ver o que vai dar nessa relação da Isabel e Albertinho. Sinceramente? Não queria que isso virasse um romance, não. Mas vamos acompanhar.

    E acho que o núcleo negro que você cita era da novela “A Próxima Vítima”, não?!

    Beijos.

  3. Catarina says:

    Tô adorando essa novela, e fui conquistada na abertura,que coisa linda.
    E realmente, uma novela que se passa em 1904 com negros que façam parte da classe média ou dominante é meio difícil.
    E eu nem tinha pensado nisso, de fato, os negros aqui são metade do elenco principal.

  4. Cintia says:

    Concordo com tudo que disse. Nessa novela não há cotas, eles não estão lá só para fazer figuração não é um ou dois atores é um núcleo, eles fazem parte do roteiro principal da novela.
    Um projeto que acho também vai ser interessante é a série Suburbia, que estréia em novembro a maioria do elenco são desconhecidos, mais espaço para novos talentos.

  5. Camy says:

    A novela está linda e mto boa na parte de história!
    Sou formada em história e faço pós em história e cultura afrobrasileira e estou adorando a novela, pena não poder ver todos os dias! Os professores e alunos da pós são só elogios e tem gnt até gravando, rs!

    tem um documentário mt bom sobre o negro nas novelas brasileiras, recomendo a todos, se chama “A negação do Brasil”. Não devce ser difícil de encontrar para baixar, não ;]

  6. Lu says:

    Realmente as novelas “voam” muito, em relação à realidade brasileira (médico de família que vai em casa de pobre, por exemplo, só em novela mesmo, onde ninguém vai ao S.U.S.).
    Agora, negro “cotista” de televisão é engraçado mesmo. Colocam um lá pra constar do elenco, meio perdido… E outra coisa, as famílias, no Brasil, são muito miscigenadas, mas nas novelas isso raramente acontece. Tem que ter o núcleo negro, núcleo oriental, núcleo nordestino, e isso fecha as possibilidades de trama em volta dos personagens.
    Mas eu morro de rir mesmo é com ‘escalação’ de reality shows: doze nórdicos e um africano, como se o Brasil fosse assim….

  7. Lu says:

    … retratar o negro como empregada doméstica, que tanto incomoda os grupos negros, não me incomoda de jeito nenhum, pois no Brasil isso foi e é realidade mesmo, e que quão digna é a profissão! Agora, nunca tem uma patroa negra, isso me incomoda pois também é realidade (eu, por exemplo).

  8. Suellen D'Carvalho says:

    Não acompanho a novela por falta de tempo e não posso opnar, mas COMO EU AMO LER SEUS TEXTOS!!! Fiquei curiosa e vou dar uma olhadinha no site sa globo! Beijos nega linda!

  9. carol rocha says:

    ainda assim estão no núcleo da pobreza e sãos discriminados, marginalizados….
    preferia o personagem do Lazáro em Insensato coração: lindo e bem sucedido e a questão racial não se colocava… O problema não é colocar a Camila como empregada doméstica – é uma profissão digna – o problema é sempre colocar uma atriz negra neste papel.Por que não escolhem a Carolina Ferraz como empregada? Revolucionário seria se a novela falasse de Teodoro Sampaio, por exemplo, ou sobre Luiz Gama q tb fazem parte da História deste país.

    • Fernanda Alves says:

      Verdade, Carol. Mas a novela é baseada em fatos reais – do Rio no início do século XX- então não tem como fugir, os negros eram descendentes de escravos mesmo, marginalizados sim. E sobre o Lázaro Ramos em Insensato Coração, eu também adorei, mas concorda que o par romântico dele também era uma mulher negra? Mesmo que a questão racial nao esteja lá, eles foram um nicho, um núcleo, e não se misturam com o resto do elenco.

      • carol rocha says:

        o exemplo da Carolina Ferraz não foi para esta novela em questão….Eu entendi o seu ponto de vista mas ainda acho q poderia ser mais revolucionário se viessem à tona personalidades negras daquela época – exceções, claro – mas que existiram.

  10. Dany says:

    oi Fê.
    confesso que sou APAIXONADA por novelas de época, nossa, não consigo nem comparar com as porcarias que insistem em passar nos outros horários (pq novelas de época só passam no horário das 18hs!?!?).
    não tenho acompanhado Lado a Lado de perto, pois tô sempre na academia nesse horário, mas o que tenho visto, tenho gostado muito. é bem legal esse ponto que vc tocou. talvez muita gente que assista novela nunca tenha parado prá pensar nisso, e no quanto é importante.
    beijo prá vc

  11. Rebeca says:

    Isso é muito ótimo Fernanda! Precisamos ser reconhecidos, afinal consumimos, lançamos moda, somos mais da metade da população. A mídia não pode fingir que não existimos.
    Adorei seu post, muito boa a reflexão.

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